sábado, 1 de novembro de 2014

Rumo à COP20: tudo sobre o 3º Seminário sobre Mudanças Climáticas do Planeta Sustentável

Marina Maciel - 30/10/2014 às 18:51

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Dando sequência à programação de ações e eventos pelo clima organizados peloPlaneta Sustentável, três especialistas brasileiros em clima se reuniram hoje (30/10), na sede da Editora Abril, em São Paulo, para participar do 3º Seminário sobre Mudanças Climáticas:
Gilvan Sampaio, pesquisador do Grupo de Interações Biosfera-Atmosfera do CCST- Inpe.
Tasso Azevedo, consultor e curador do Blog do Clima, do Planeta Sustentável; e
Everton Lucero, chefe da Divisão de Clima, Ozônio e Segurança Química do Itamaraty.
Além de apresentar o cenário divulgado pelo 5º relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os palestrantes destacaram dados sobre asemissões de gases de efeito estufa (GEE) que ainda podem ser praticadas pela humanidade até o fim do século e, também, a posição do Brasil nas negociações climáticas.
O diretor do Planeta Sustentável, Caco de Paula, descreveu a iniciativa como um “encontro de empresários ‘top’, cientistas bem atualizados e jovens talentos”, com o objetivo de tornar a linguagem árida da alteração do clima mais acessível, porém não simplória (por jovens talentos entenda-se os alunos da primeira Semana Abril de Jornalismo Ambiental realizada, no início deste mês, também pelo Planeta Sustentável).
Estiveram presentes ao evento mais de 60 representantes de empresas. Representando o Pacto Global e a CPFL Energia, onde é gerente de sustentabilidade,Carlo Linkevieius Pereira destacou o papel fundamental das corporações na mudança da sociedade, a importância da adesão ao Pacto, convidando os empresários e executivos a participar do GT Energia e Clima da entidade.
O coordenador editorial do Planeta Sustentável, Matthew Shirts, aproveitou a oportunidade para divulgar a reportagem “Vozes da Mudança” e a HQ “Heróis do Clima”, que serão lançadas pela nossa iniciativa durante a COP20, em Lima, no Peru.
Abaixo, estão os principais momentos e destaques de cada palestra:
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GILVAN SAMPAIOO pesquisador desenhou um panorama dos pontos relevantes do último relatório do IPCC e das pesquisas feitas no Brasil sobre os extremos climáticos. Segundo Sampaio, a frequência dessas ocorrências tem aumentado no país, assim como em outras partes do mundo.
O último documento do IPCC revela que, em 60 anos de análise, as noites e dias frios têm diminuído na América do Sul; no entanto, aumentou a frequência de dias e noites mais quentes. “Qual é o impacto disso? Em muitos casos, não sabemos o quão vulneráveis estamos em cada uma das atividades que realizamos. O impacto é diferenciado em cada setor, em cada região”, disse.
Ao falar em extremos do clima e desastres naturais, ele destacou que é preciso levar em conta a ocupação humana. “Enchentes e inundações têm forte relação com adensidade populacional nas cidades”, exemplificou. “O último relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMCque compila resultados científicos, assim como o IPCC, mas exclusivamente no Brasil) identificou aumento da tendência de temperaturas máximas no país. O principal motivo é o lançamento de GEE na atmosfera, que intensifica o efeito estufa; e a segunda razão mais importante é o chamado ‘efeito ilha de calor urbano’, como é o caso de São Paulo”.
A respeito da crise hídrica enfrentada pelo estado, Sampaio disse que episódios de estiagem como este terão probabilidade maior de ocorrer. “Estamos cada vez mais suscetíveis a eventos assim. Essa é a mensagem do IPCC: temos que aprender a conviver com isso e nos preparar”, concluiu.
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TASSO AZEVEDOAproveitando a fala de Sampaio, o consultor alertou: “Não conseguimos dizer, com certeza, que a seca que vivemos hoje em São Paulo é consequência das mudanças climáticas. Mas esse tipo de ocorrência pode se repetir”, disse. Segundo ele, a melhor chance de minimizar esses efeitos é limitar o aquecimento médio do planeta a 2ºC ou menos.
Para exemplificar, Azevedo mostrou o orçamento dado pelo IPCC: para ficarmos no cenário de 2ºC, podemos emitir 3.670 GtCO2e no total, considerando emissões de 1880 até 2100. O problema é que já emitimos 2.670 GtCO2e até 2011. Logo, sobrou 1.000 GtCO2e para emitir entre 2012 a 2100, o que daria uma média de 11 GTCO2e por ano.
Mas ele lembrou, em seguida, que o mundo já emite hoje bem mais que isso: são 50 GtCO2e lançados na atmosfera por ano. “E a trajetória aponta para o aumento dessa quantidade nos próximos anos. Então, precisamos de uma redução brusca para ficar no cenário mais otimista”, afirmou. “Ainda há possibilidades e precisamos trabalhar para que elas se concretizem”, concluiu.
Quanto à COP20, que acontecerá este ano, Azevedo acredita que as decisões da conferência servirão de subsídio para o acordo de Paris, em 2015, na COP21. “Um dos desafios mais importantes é definir o que os países vão apresentar comocontribuições nacionais. O segundo desafio diz respeito à definição dos elementos do novo acordo. Por último, espera-se decidir sobre a aceleração da implementações de ações pré-2020”, disse.
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EVERTON LUCEROPara o diplomata, as mudanças climáticas são um desafio da humanidade como um todo, não de países ou pessoas. “Portanto, a questão não deve ser vista apenas pela perspectiva ambiental, mas também pela econômica e da sobrevivência da espécie”, afirmou.
Segundo Lucero, um país sozinho não resolveria a questão climática. “Como o problema é global, precisamos repartir o esforço. Por mais que o Brasil zerasse suas emissões de GEE, ainda enfrentaríamos os efeitos das mudanças climáticas. Todos têm que fazer a sua parte”, defendeu.
“Diante da escassez de recursos, a diplomacia é um caminho. Mas existem outros, que podem acarretar em questões de segurança nacional, como a guerra. Mas eu me coloco do lado otimista: estamos buscando alternativas criativas que não interferem em nosso processo de desenvolvimento e que sejam ambientalmente corretas”, destacou o diplomata.
Para a COP20, Lucero afirma que o Itamaraty defende um acordo que seja justo, efetivo e equilibrado, de forma que todos os países participem e se esforcem também para a adaptação à mudança do clima, e não apenas à mitigação.
Fotos: Fellipe Abreu
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