terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A CRISE ECONÔMICA E FINANCEIRA MUNDIAL NA VISÃO DOS(AS) TRABALHADORES(AS)

Aconteceu sábado 14 de fevereiro de 2009 na sede do Sinttel a primeira reunião da Executiva Estadual da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil/Piauí (CTB/PI), onde foi discutido os reumos da CTB NO Piauí a Crise Economica mundial e seu impacto no Brasil como tambem, o planejamento dos trabalhos para o primeiro semestre deste ano de 2009 da CTB no Piaui. Na oportunidade o professor Mário Ângelo M. Sousa Presidente da CTB/PI fez uma Exposição e Apresentadaeção sobre a Crise Economica Mundial. Abaixo o relato na integra.

1-A atual crise econômica, a pior dos últimos 80 anos, é o centro da conjuntura nos próximos anos. Originada nos Estados Unidos, se propagou a todo o planeta, de crise financeira passou para recessão geral, de crise norte-americana para crise global.Ela tende a agravar-se. E o seu desfecho é por ora imprevisível. A dúvida é quanto à sua dimensão, profundidade e duração de seu impacto. Embora os impactos da crise não sejam da mesma natureza e magnitude em todos os países, a retração da atividade econômica e o aumento do desemprego, que se seguiram à desorganização do sistema de crédito e financiamento, são hoje fenômenos comuns a praticamente todos os países.

A crise que começou e continua intensa no setor financeiro dos países mais desenvolvidos, principalmente nos EUA quando estourou a bolha imobiliária, em set/outubro de 2008, encerrando um ciclo de frágil e curta expansão da economia norte-americana, iniciado em novembro de 2001 espalha-se pelo restante da economia: com a suspensão de novos investimentos em grande parte do setor privado; com a redução do comércio internacional segurando a produção em todo o mundo; com o anúncio de novas medidas protecionistas em países ricos afetando as economias dos outros países; com a queda dos preços de produtos de grande importância na vida econômica dos países da América Latina, Ásia, Oriente Médio e África, as chamadas commodities (alimentos, minérios, petróleo); com a retirada de capitais destes países e seu retorno aos países centrais; com as mudanças cambiais que enfraquecem as moedas destes países e encarecem os produtos que adquirem.

A crise ocorre também num momento em que agrava a crise social e alimentar já antes dramática em várias partes do mundo, vem se somar à crise ambiental/energética e a fragilidade econômica e política dos EUA após oito anos de governo Bush, (percebe-se a ascensão de outras potências no cenário internacional, principalmente a China) muito embora ainda possua um poderio militar maior que todos os outros países. Mas nenhum império pode se manter simplesmente pela força militar.

Ao contrário do que afirmam, parcelas da mídia e da oposição conservadora as crises não são obra do acaso ou responsabilidade de apenas alguns investidores. Faz parte da natureza do sistema capitalista, tem caráter estrutural e não pode ser resolvida nos marcos do sistema.

A história do capitalismo revela repetidos booms, quebras e bolhas pontuais. Os ciclos do capitalismo variam de forma imprevisível desde o local e superficial até ao profundo, longo e global. Manter o capitalismo é sofrer a sua instabilidade crônica.

As crises são conseqüência do próprio desenrolar do sistema capitalista, que se apresentam ao final de cada ciclo de expansão econômica. Depois de lucrar muito nos períodos de crescimento, as empresas querem, nos momentos de crise, penalizar os trabalhadores com desemprego e perda de direitos.

Nos períodos de crise, o grande capital busca se entrincheirar no Estado e nos organismos institucionais, como os Bancos Centrais e organismos de coordenação internacionais, a fim de tentar salvar suas posições e recuperar o que perderam com a crise. Procuram assim jogar todo o ônus da crise na conta dos trabalhadores.

Primeiro, tentam vender a ilusão de que na crise cada um deve dar sua contribuição para que todos possam se salvar, mesmo sabendo-se que quem quer se salvar é a burguesia e seu sistema de exploração. Quando este método não funciona, o capital marcha unido contra os trabalhadores buscando ampliar o raio de exploração e retirar-lhes direitos e garantias.

Portanto, esta conjuntura deverá acirrar as lutas sociais e as disputas entre as classes fundamentais da sociedade capitalista.

A crise representa o confronto aberto entre os projetos das duas classes. Cada classe vai buscar resolver a crise de acordo com os seus interesses e com seu projeto político de sociedade. Quanto mais grave a crise, mais há a possibilidade de um acirramento da luta de classe. Vale ressaltar que não existe crise sem saída, não existe crise sem solução. Poderemos, por um lado, observar uma violenta ofensiva da burguesia, que se torna mais agressiva nesta época porque quer recuperar a todo custo as taxas de lucro e o controle do sistema. O exemplo do nazismo e do fascismo ainda estão bem vivos para nos advertir do que a burguesia é capaz para manter o seu domínio.

Mas também é nas crises que as lutas sociais e políticas dos(as) trabalhadores(as) podem ganhar uma dimensão muito maior em relação ao período anterior, setores que antes pareciam adormecidos, acomodados e envolvidos pela ideologia do capital, podem entrar na cena política com um vigor capaz de deixar perplexos não só aqueles que estavam dominados pela fatalidade do domínio burguês, mas até o próprio inimigo de classe, que é tomado de surpresa pela ousadia das massas.

A verdade é que poucos analistas tratam com profundidade e buscam de fato explicar a natureza da crise, sua gravidade e conseqüências.

2- Antecedentes da crise. Como já enfatizara Marx, os capitais se movimentam permanentemente na busca de valorização e da maximização do lucro.

Quando as taxas de lucro estão caindo, o capital procura novas formas para restabelecer seu patamar de rentabilidade. Foi exatamente o que aconteceu a partir da segunda metade da década de 1960, quando as taxas de lucro começaram a decrescer nos países centrais, especialmente nos Estados Unidos. Diante dessa conjuntura, o grande capital realizou um movimento estratégico para recuperar as taxas de lucro, baseado em três eixos fundamentais: 1-Parte expressiva dos setores industriais do EUA foi deslocada para a Ásia, México, América Latina e América Central em busca de mão-de-obra barata e um conjunto de outras vantagens econômicas e institucionais que possibilitassem ao capital operar de maneira mais vantajosa, de forma a elevar as taxas de lucro.

2- Os setores mais parasitários do capital que assumiram o poder nos Estados Unidos e Inglaterra no final da década de 70 buscaram reconfigurar o mundo a partir da criação de uma nova ordem econômica internacional, tendo como pilares a implantação do monetarismo como forma de organizar a economia e o neoliberalismo como o gestor político do sistema sócio-econômico. Transformaram em política de Estado a ideologia neoliberal.
3- Além dessas mudanças de fundo, o grande capital norte-americano realizou na década de 80 e 90 uma espécie de fuga para frente, buscando estruturar uma economia de serviços, baseada na criação da riqueza mediante o extraordinário desenvolvimento do capital fictício. O objetivo era desenvolver um sistema financeiro sofisticado e hierarquizado a partir das instituições norte-americanas, capaz de capturar parte da mais valia mundial, e estruturar as relações sócio-econômicas mundiais a partir dos interesses dos Estados Unidos. Essa reestruturação estratégica do grande capital norte-americano, ao contrário do que seus idealizadores imaginavam, fragilizou de maneira acentuada a economia dos Estados Unidos, uma vez que as três variáveis implementadas para resgatar as taxas de lucro e controlar o sistema financeiro mundial resultaram num conjunto de problemas estruturais que viriam emergir dramaticamente com a crise atual, tais como um déficit fiscal, um déficit na balança comercial, elevação exponencial da dívida externa, da dívida das famílias e corporações, além da constituição de um sistema financeiro tão especulativo, que construiu as próprias bases de sua desagregação.

É importante ressaltar outros fatores negativos que contribuíram para a crise: "desindustrialização" manufatureira nos EUA; as derrotas impostas ao movimento sindical; a precarização do trabalho e a contratação da mão-de-obra imigrante tiveram um papel dramático sobre a renda dos trabalhadores norte-americanos. "Entre 2000 e 2006 a economia norte-americana cresceu 18%, mas a renda mediana dos domicílios dos trabalhadores caiu 1,1% em termos reais (...) Em contrapartida, os 10% mais ricos da população viram sua renda crescer 32%. No caso dos 1% mais ricos o crescimento foi de 203%, e de 425% para o segmento representante dos 0,1% superior na pirâmide de renda" (Valor Econômico- SP 29/10/2008)

3- Os acontecimentos em curso realçam o fracasso do neoliberalismo. Embora não signifiquem necessariamente o seu fim, contribuem para seu enfraquecimento e podem reforçar a luta por outros projetos de desenvolvimento, fundados na soberania dos povos e na valorização de trabalho.

Durante anos, nos acostumamos a ouvir dos analistas econômicos neoliberais que os governos deviam manter-se afastados de ingerências na economia, deixando ao deus mercado a responsabilidade de regular e controlar a situação. Diziam-nos que a livre concorrência e a "mão invisível do mercado" bastaria para garantir o equilíbrio e a felicidade do mundo.

Curiosamente, o que mais se fala neste momento de crise, é do esforço que deve ser feito pelos governos para salvar as economias em risco. De quanto precisam as montadoras, do montante já liberado pelos bancos, dos impérios que foram à falência. Sobre demissões, fala-se como justificativa para liberação de recursos para "salvar" as empresas.

4- A marca do capitalismo atual é a imprevisibilidade e a incerteza, e não deixa lugar para ilusões sobre a crise.Frente á crise, o que fazer? O diagnóstico e os remédios refletem a ideologia de cada um.Uma primeira linha divisória nas reações à crise está entre:

1- Os que querem soluções de apoio às empresas em dificuldades, até que passe a crise e se restabeleçam os mecanismos mercantis impostos pelos liberais ao conjunto da economia.

2-E os que pretendem diminuir os efeitos profundos da crise, impondo mecanismos de regulação, de reativação econômica, que apontem para os mecanismos profundos da crise, a anarquia da competição mercantil no capitalismo.

Em um segundo plano está a divisão entre:

1-Os que pretendem apenas domar certos mecanismos mais selvagens do mercado.

2- E os que pretendem salvaguardar os interesses da grande maioria da população, resguardando sobre tudo o nível de emprego e penalizando as empresas que mais diretamente promoveram fraudes especulativas.

Certamente o efeito social mais dramático das crises econômicas que perturbam periodicamente o processo de reprodução do capitalismo é o desemprego em massa. Desta vez não é diferente.

A economia estadunidense, epicentro da crise, destruiu 2,6 milhões de postos de trabalho no ano passado, de acordo com informações do Departamento de Trabalho dos EUA(06/02/2009) em janeiro deste ano foram demitidos 598 mil trabalhadores(as).

Trata-se da maior eliminação de postos de trabalho no país desde dezembro de 1974, quando houve corte de 602 mil vagas. A taxa de desemprego atingiu o nível mais elevado nos últimos 16 anos. Tudo isto demonstra a gravidade da atual crise, que vem sendo comparada por muitos observadores à Grande Depressão que atravessou os anos 1930 e desaguou na 2ª Guerra Mundial.

Os 27 países que formam a União Européia entraram oficialmente em recessão conforme anunciou(13/02/2009) o Eurostat, órgão estatístico da região. O PIB (Produto Interno Bruto) encolheu por dois trimestres consecutivos. A queda foi de 0,2% no terceiro trimestre de 2008 e de 1,5% no quarto.

Cabe aos trabalhadores (as) e os movimentos sociais organizados pressionarem os governantes do mundo, que a saída da crise seja pelo campo democrático popular, saída de sentido progressista, garantindo os direitos dos trabalhadores (as), investimentos estruturantes em políticas públicas, com a desoneração na produção como forma de garantir empregos.

Essa é uma forma de não permitir que os trabalhadores (as) paguem à conta da crise, que deve ser paga pelos ricos e especuladores. Precisamos fazer da luta social, um elemento de mobilização popular.

5- O grande desafio do movimento sindical e popular na atualidade é enfrentar a crise e não deixar interromper o processo de desenvolvimento econômico em curso no Brasil.

As crises passadas, como a de 1998, pegaram o Brasil despreparado e praticamente de joelhos em relação à economia mundial hegemonizada pelos EUA. O país, sob o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, adotou praticamente todas as exigências do FMI, fez a ''lição de casa'' da privatização e da desregulamentação e, quando a crise chegou - diga-se, aliás, muito menor do que a atual, cujo epicentro é a principal economia do planeta, os EUA - o país quebrou.

A média anual de crescimento, nos dois mandatos do presidente Lula, supera a marca de 4%; Em contraste, a média dos oito anos de Fernando Henrique Cardoso foi de 2,3% ao ano...

Naqueles anos prevalecia o dogma de que crescimento não podia passar de 3,5% ao ano, uma lenda imposta como verdade científica, mas que obedecia à determinação de travar o crescimento para evitar o consumo popular, manter a força de trabalho sob controle, e barata, e favorecer o capital financeiro, brasileiro e estrangeiro.Esta etapa está superada.

É importante ressaltar, que os desdobramentos da crise econômica, com seus efeitos sociais e políticos, terão decisiva influência nas eleições de 2010 no Brasil e em outros processos sucessórios que se avizinham na América do Sul.

A disputa política no país deve ser concentrada na gestão da crise. O argumento é de que o sucesso do presidente(o governo Lula tem o apoio hoje de 72,5% dos entrevistados, enquanto que na pesquisa anterior tinha 71% e Lula -- pessoalmente -- passou para 84%, quando na pesquisa anterior havia conquistado 80% do universo pesquisado- CNT/Sensus-Jan/2009) resultou da boa situação econômica/2008, mas ele poderá perder votos se a crise aprofundar em 2009.

Até agora, há uma aprovação da grande maioria da população sobre como o governo vem conduzindo a resposta à crise financeira mundial. Mas esse apoio ainda pode ser seriamente afetado pelo nível do desenvolvimento econômico, a depender dos impactos da crise na economia nacional.

Hoje, o país não sofre a crise passivamente, mas tem musculatura, força e reservas para tomar iniciativas contra ela.Há discussões sobre as atitudes a tomar.

O governo do presidente Lula tem tomado várias medidas positivas no sentido de enfrentar a crise, tais como o anúncio da construção de casas, o reforço ao Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC, o fortalecimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a utilização das reservas internacionais para financiar as exportações.

Porém, estas iniciativas são neutralizadas pela política monetária praticada pelo Banco Central do Brasil, que de forma absolutamente injustificada tem mantido a taxa real de juros brasileira como a mais alta do mundo.

Os pontos críticos do reflexo da crise no Brasil são o corte no ciclo de investimentos, com o rebaixamento das expectativas de crescimento econômico, o recuo da produção industrial, o crescimento do déficit externo, a diminuição do crédito interno, o aumento do desemprego e a diminuição da renda do trabalhador.

As estatísticas divulgadas pelo IBGE (03/02/2009) sobre o comportamento da indústria nacional no último trimestre do ano passado surpreenderam os analistas pela dimensão da queda das atividades (-12,4%) e o alargamento do conjunto dos ramos que entraram em recessão (25 em 27). Todavia, o dado mais preocupante é o tombo na produção de máquinas e equipamentos (-19,2%), que reflete forte redução dos investimentos no chamado setor secundário (indústria).

Os ramos da produção estão interligados e, conforme podemos deduzir das estatísticas divulgadas pelo IBGE, a queda em um setor da economia afeta os demais, de modo que a superprodução e a recessão localizada não tarda a se alastrar por toda a economia. Quando os investimentos declinam sinalizam redução do crescimento do PIB no futuro, o que pode comprometer a retomada do crescimento do país.

Janeiro/2009 marcou o quarto mês seguido de fluxo cambial negativo para o Brasil. De acordo com dados divulgados(04/02/2009) pelo Banco Central, a saída de recursos do país superou a entrada em US$ 3,018 bilhões no mês passado. Em dezembro/2008, o fluxo havia sido negativo em US$ 6,373 bilhões.

Por isso, as medidas mais urgentes devem estar voltadas para a intensificação do investimento público, a queda acentuada da taxa real de juros, o suprimento do crédito interno baseado no sistema público bancário nacional e no investimento que garanta a ampliação do emprego e a defesa da renda do trabalho.

6- Combater as demissões em massa e o flagelo do desemprego que emerge com a crise exportada pelo capitalismo americano não é uma responsabilidade apenas do movimento sindical. É, antes, um desafio para o conjunto da nação brasileira, a CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), proclama a necessidade de unidade das centrais, dos partidos progressistas e dos movimentos sociais e orienta as entidades filiadas a mobilizar as bases para lutar em defesa do emprego, dos direitos e conquistas da classe trabalhadora, levantando as seguintes bandeiras:

- Redução da jornada de trabalho sem redução de salários.

-Redução substancial das taxas básicas de juros.

-Condicionar a concessão de benefícios dos governos às empresas privadas à manutenção do nível de emprego.

-Mudanças na política econômica, redução do superávit primário, controle do câmbio e do fluxo de capitais e taxação das remessas de lucros.

-Mais investimentos públicos visando a geração de emprego.

- pela efetiva reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar.

-Limitação das horas extras.

- pela reforma tributária fundada no princípio da progressividade e da justiça social.

-Nenhum direito a menos.

O sindicalismo classista compreende que só a superação do capitalismo possibilita a emancipação do trabalho, e a abertura de uma nova era de progresso social. Para acumular forças e fazer valer essa alternativa de alcance estratégico, os (as) trabalhadores(as), na atualidade, lutam por um projeto nacional de desenvolvimento, com valorização do trabalho, geração de emprego e distribuição de renda, fundado na soberania e na integração solidária da América Latina.

Mário Ângelo M. Sousa – profº de Geografia da Universidade Federal do Piauí e Presidente da CTB/PI.Exposição Apresentada na Reunião da Direção Estadual da CTB/Piauí no dia 14/02/2009 noSinttel.

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